
Um estudo realizado pela ONG Ecomov revelou um aumento alarmante de 453,6% no volume de lixo internacional encontrado nas praias do litoral paulista entre 2019 e 2024. O levantamento, que monitorou resíduos em cidades como Peruíbe, Santos e outras localidades da região, identificou 1.218 itens de origem estrangeira apenas no último ano, contra 220 registrados em 2019. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu um inquérito civil para investigar a origem desses materiais, que incluem desde embalagens de alimentos até um botijão de gás chinês.
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A pesquisa, que cobriu o litoral norte, sul e o Vale do Ribeira, apontou que 51,6% dos resíduos têm origem na China, seguidos por produtos da Coreia do Sul, Rússia e Irã. Segundo especialistas, o descarte irregular por embarcações em alto-mar pode ser a principal causa do problema, com os resíduos chegando às praias meses após serem jogados no oceano.
O levantamento da Ecomov mostrou que, em 2019, foram encontrados 220 itens de lixo internacional nas praias do litoral paulista, provenientes de 13 países. Esse número subiu para 1.218 em 2024, com resíduos de 20 nações diferentes. A cidade de Peruíbe lidera o ranking de localidades com maior quantidade de lixo estrangeiro, mas o problema se estende por toda a região.
Entre os objetos mais chamativos encontrados estão embalagens de café da China, refrigerantes coreanos, ração humana chinesa e até um botijão de gás de origem chinesa. Rodrigo Azambuja, presidente da Ecomov, destacou que muitos dos produtos ainda estavam dentro do prazo de validade, com 30 a 40 dias de fabricação, o que sugere que o descarte ocorreu recentemente.
"Esses resíduos chegam em condições variadas. Alguns estão bem preservados, enquanto outros já apresentam organismos marinhos, como cracas, indicando que ficaram boiando no oceano por meses antes de atingir as praias", explicou Azambuja.
Diante do aumento significativo de lixo internacional, o MP-SP abriu um inquérito civil para apurar a origem dos resíduos. O caso está sob responsabilidade do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema) de Santos, que investiga possíveis falhas na fiscalização de embarcações e na gestão portuária.
A Autoridade Portuária de Santos (APS) afirmou que o descarte de lixo no mar é um problema global e que o Porto de Santos segue diretrizes específicas para minimizar os impactos ambientais. Entre as medidas adotadas está o Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, que estabelece normas para coleta, armazenamento e destinação correta de resíduos gerados pelas embarcações.
A Marinha do Brasil, por sua vez, ressaltou que sua responsabilidade está focada na segurança da navegação e na prevenção da poluição hídrica, mas não inclui a fiscalização de resíduos nas faixas de areia. Já a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) destacou iniciativas como a Resolução ANTAQ nº 99/2023, que regulamenta a retirada de resíduos de embarcações, e a participação em programas internacionais como a Força-Tarefa GloLitter, voltada à redução do lixo plástico nos oceanos.
O aumento do lixo internacional nas praias do litoral paulista traz sérios impactos ambientais, afetando ecossistemas marinhos e a qualidade de vida das comunidades costeiras. Além disso, a presença de resíduos estrangeiros evidencia falhas na fiscalização de embarcações e na gestão de resíduos em portos.
Rodrigo Azambuja destacou que muitos dos resíduos encontrados são provenientes de navios que abastecem seus mantimentos em portos chineses e, posteriormente, descartam as embalagens no mar. "Essa situação indica que os resíduos podem estar sendo despejados em alto-mar e, devido às correntes marítimas, acabam chegando às nossas praias", explicou.
O estudo da Ecomov mostrou um crescimento constante no volume de lixo internacional ao longo dos anos:
2019: 220 resíduos (13 países)
2020: 400 resíduos (14 países)
2021: 600 resíduos (18 países)
2022: 900 resíduos (19 países)
2023: 1.300 resíduos (13 países)
2024: 1.218 resíduos (20 países)
Apesar da leve redução em 2024 em relação ao ano anterior, o número ainda é significativamente maior do que o registrado em 2019. A ONG também destacou que 40,5% dos resíduos foram catalogados e identificados por meio de aplicativos e ferramentas de rastreamento, o que facilitou a determinação de sua origem.
Para enfrentar o problema, especialistas defendem a adoção de medidas mais rigorosas de fiscalização e conscientização. A Ecomov sugere a implementação de tecnologias de monitoramento em embarcações e a criação de políticas internacionais que responsabilizem as empresas pelo descarte irregular de resíduos.
Além disso, é fundamental fortalecer a cooperação entre órgãos públicos, como o MP-SP, a Marinha e a Antaq, para garantir uma atuação integrada no combate à poluição marinha. A conscientização dos tripulantes e das empresas de navegação também é essencial para reduzir o descarte de lixo no mar.
O aumento de 453% no volume de lixo internacional nas praias do litoral paulista é um alerta para a necessidade de ações urgentes no combate à poluição marinha. O inquérito aberto pelo MP-SP e as iniciativas de órgãos como a Antaq e a Marinha são passos importantes, mas ainda insuficientes para resolver o problema.
Enquanto isso, a população pode contribuir denunciando casos de descarte irregular e participando de ações de limpeza nas praias. A preservação dos oceanos e das áreas costeiras depende da união de esforços entre governos, empresas e sociedade civil.