
O avanço acelerado do mar, intensificado pelas mudanças climáticas, tem provocado o recuo e até o desaparecimento de faixas de areia em várias praias do estado de São Paulo. Entre os casos mais críticos estão a Praia dos Milionários e Gonzaguinha, em São Vicente, na Baixada Santista, e a Praia do Leste, em Iguape, localizada no extremo sul do estado, dentro do Vale do Ribeira, área marcada por processos naturais e intervenções humanas que agravam a erosão costeira.
A Praia do Leste, em Iguape, vem sendo monitorada desde o início da década de 1990 por especialistas em geologia costeira. Segundo a geóloga Célia Regina de Gouveia Souza, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) vinculado à Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), a faixa de areia de Iguape tinha cerca de 50 metros em 1992. Já no verão de 1993, começaram os primeiros sinais de recuo, com perda gradual da areia e alterações na morfologia da praia, resultando no desaparecimento completo entre 2006 e 2007. Localizada em uma zona dinâmica do litoral, a praia de Iguape no Vale do Ribeira foi comprimida entre sedimentos provenientes da Ilha Comprida e da Juréia, acelerando sua substituição pelo mar .
Além dos fatores naturais, intervenções humanas como a abertura do canal do Valo Grande, que desviou cerca de 75% das águas do Rio Ribeira de Iguape para o Mar Pequeno, alteraram o transporte de sedimentos e intensificaram a erosão na região. Esse desvio sedimentar contribuiu para o avanço costeiro da Ilha Comprida, impactando diretamente o desgaste da orla da vila de Icapara e outras localidades ao longo do Vale do Ribeira .
No caso da Praia dos Milionários, em São Vicente, a erosão costeira tem sido intensificada pela construção de acesso viário que conecta a Ilha Porchat à praia. Segundo a geógrafa Breylla Campos Carvalho, da Unifesp, essa obra bloqueou o transporte sedimentar longitudinal, impedindo que sedimentos chegassem às praias dos Milionários e Gonzaguinha, contribuindo diretamente para a redução da faixa de areia. A Praia do Gonzaguinha, tradicionalmente utilizada para práticas esportivas e lazer pela população local, já teve sua extensão consideravelmente reduzida ao longo das décadas, e atualmente requer obras de contenção como molhes e espigões para tentar preservar o que resta da faixa arenosa .
Dados recentes do governo estadual indicam que, dentre as 109 praias analisadas em São Paulo, 61 apresentam risco alto ou muito alto de erosão costeira. Destas, Iguape figura entre os municípios mais afetados, com três praias classificadas como vulneráveis, enquanto São Sebastião e Ubatuba também aparecem no estudo com risco elevado .
A erosão costeira, fenômeno natural originado pelo balanço sedimentar negativo, é agravada por ações humanas, como ocupação desordenada da orla, construção de portos e grandes obras na costa. O resultado é a perda progressiva da faixa de areia da praia, risco de danos a infraestruturas, e comprometimento do potencial turístico dessas regiões litorâneas .
Como estratégias de mitigação, especialistas recomendam a adoção de obras de engenharia costeira, como quebra-mares e reconstrução artificial de praias com reposição de areia compatível, além de políticas públicas integradas e gestão territorial planejada. A educação ambiental e a conscientização das comunidades costeiras também são fundamentais para preservar não apenas a praia, mas todo o patrimônio natural do Vale do Ribeira e da Baixada Santista.